quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O monstro que ainda viver em mim


            O rapaz caminhava, caminhava sem entender: “Como posso, como posso ainda agir assim”? Estava na cara que se fazia essa pergunta por, de fato, não se conhecer. E como viria esse conhecimento? Como ele saberia quem realmente era para poder entender o porquê de agir assim e como poderia se livra disso Logo, logo ele saberia. Ou melhor, lembrado seria.
            Num desses dias normais, que ninguém espera que nada de anormal venha acontecer – se é que se pode chamar de anormal o que aconteceu, quando entende-se que isso era para ser a norma nos aconteceres da vida –, o rapaz estava em casa. Sabia que tinha que ler O Livro. Sabia que a vida se aperfeiçoaria, seu relacionamento com o Autor do Livro de fortaleceria quando por meio da leitura do Livro ele se dedicasse. Mas, não, agindo conforme age o monstro que nele vive ele fugia, mesmo sabendo, mesmo querendo, seu queria se “desqueria” e ele fugia.
            Dor? Sim. Por quê? Porque não estava fazendo aquilo que tivera sido feito para fazer. Por quê? Porque estava a cada dia vendo o quão vil ele poderia ser. Não bastava fazer, não bastava dizer, não bastava simplesmente saber, ele estava percebendo que tinha de ser, tinha de saber e transformar isso em viver, tinha de si humilhar.
            Ah, mas ele tentou. E como tentou. Por seu braço, por sua perna, corria, e dois metros depois, tropeçava, caia. Choro, muito choro; dor, muita dor. Risada? Era algo que era muito comum na sua vida antes desse encontro mais forte com o monstro (na verdade, não só com o monstro, pois o monstro não apareceria se o rapaz não se encontrasse com uma Pessoa antes). Agora, não mais. O que era ânimo tornou-se desânimo. O que era chamado tornou-se motivo para fuga. O que era alegria tornou-se tristeza. O que era vontade de se levantar e correr tornou-se vontade de daquele jeito permanecer. O que era esperança tornou-se desesperança, não no seu Magnífico Objeto de Esperança, mas a esperança em si mesmo.
Pronto, é ai. É ai que as coisas começam a mudar.
Você pode perguntar, como alguém que está vendo está história um tanto que confusa, ou parecida com a sua, um tanto que clara, mas escondida em metáforas: com quem é que esse rapaz se encontrou? Se ele não conseguia por si mesmo, quem é que o levou? Se não é por se mesmo, quem é que o mantém?
O rapaz se encontrou com o Autor do Livro por meio do Livro. Como assim?! Quando ele já não esperava mais por si mesmo o Autor chamou. Como fora esse chamado? Imagina alguém que está com muita sede (sede, sede mesmo, como quem passou 40 dias num deserto) e não consegue nem se levantar para beber, ai alguém chega lá e lhe dar água. Pronto. Foi assim, Ele, o Autor, transformou o deserto num jardim, a sede numa sede ainda maior de beber daquela água que tivera sido deixada de lado. Que água? O Livro.
Quando o rapaz abre o livro o que ele vê? Um espelho, e logo se assusta. Porquê?! Viu o monstro, viu que não era bom o quanto pensava e por mais que soubesse pelo próprio Livro que ninguém era bom, nem mesmo Ele, o seu susto, desespero e tristeza foi prova de que faltava muito para entender realmente o que isso significava. Contudo, percebamos o seguinte: não foi qualquer espelho, não era um espelho que refletia simplesmente sua imagem, mas sim a imagem do Autor, a Perfeição. Ela mostrava o que ele não era e o que deveria ser. Ao olhar para o espelho ele percebeu que faltava muito, muito – e eu poderia passar uma eternidade dizendo muito, para esse muito que me refiro – para ser como a imagem do Autor.
Ai, cada vez mais ele entrava em desespero. O desespero e a morbidez que ele já tinha e estava já vinha disso. Era como se a sua própria imagem, o monstro que habitava nele, fosse o plano de fundo onde brilhava as estrelas da perfeição do Autor.
Ah, mas como é Belo e Rico em dar favores imerecidos por amor esse Autor do Livro. Mostrou-lhe o quão miserável era o rapaz, mas não o deixou ali, lembrou-lhe dos favores imerecidos, lembrou-lhe de Suas promessas àqueles que como o rapaz, já tinham sido alvos da promessa do cruzado lenho. Lembrou-lhe que há remissão, há perdão, há possibilidade de mudança (a partir do arrependimento), contudo, não pela própria força, mas pela força do Autor. O Autor que “escreveu” o livro, que é o personagem central dele, que é o que consumou a promessa no cruzado lenho, que é o Derramador de favores imerecidos, que socorre àqueles que já perderam as esperanças em si mesmo, pois enquanto a esperança estiver em si mesmo, não há esperança, mas no momento que a esperança passa a ser nAquele que de fato trás a esperança, então, a maior das esperanças será, e essa acabará, no Dia. Por quê, ela acabará?
O rapaz foi lembrado. O rapaz saiu do escuro que estava e foi levado – veja bem, não foi por ele mesmo, ele foi levado – para a Luz. O rapaz percebeu que o monstro que nele vive, AINDA vive, não por muito tempo, mas logo “desviverá”, ou melhor, para sempre morrerá, apesar do velho homem ter morrido, a natureza dele, ou melhor, o monstro, ainda está lá.
Sabe por que a esperança acabará, como abará todas as outras coisas? Pois, no Dia, o que se era esperado, se verá, e não mais se esperará, mas sim, se desfrutará e gozará, muito se alegrará, na presença do Esperado. E o que é eterno será; dentre as coisas de “eternitude”, lá está, o amor. O amor que resgatou o rapaz, o amor que novamente trouxe luz a ele, o amor que o faz caminhar e seguir e fazer do que deveria ser, realmente ser; que o faz caminhar e se cair, levantar. Ele concluiu, na verdade o Livro lhe mostrou, que foi feito para ser como o Autor.
Christopher Vicente,
23 de agosto de 2012.

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